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quarta-feira, 17 de junho de 2020

A eutanásia no amor



Nunca fui fã de livros, mas não há nada melhor do que uma boa história, seja ela romântica ou até mesmo de aventura, que me faça prender ao sofá com o livro numa mão e uma chávena de chá na outra. Viver Depois de Ti - escrito pela jornalista/ escritora Jojo Moyes (originalmente conhecido como Me Before You) - teve esse mesmo efeito sobre mim. O que me fascina neste mesmo livro é o tema abordado; um tema muito particular, controverso, que pode causar até alguma polémica e é difícil de ser falado nos dias de hoje - a eutanásia. 
Este conjunto de folhas de papel impressas em maio de dois mil e treze, relata a história de uma jovem, Louisa Clark, com uma vida bastante banal numa pequena aldeia, que, quando fica desempregada, se vê obrigada a aceitar um emprego na mansão de Will Traynor, um jovem magnata com um caráter bastante satírico, que vive preso a uma cadeira de rodas após um acidente trágico o ter deixado paraplégico. Ao longo da obra, o leitor irá testemunhar como a forma ingénua e amável de Louisa ser e o facto de a mesma aceitar tudo e todos e amá-los por eles serem quem são, vai mudar o caráter de Will, levando-o a apaixonar-se por ela, sendo mais tarde retribuído por ela. 
Do meu ponto de vista, a maneira como a autora deste mesmo romance aborda a eutanásia, um tema tão delicado, leva-nos a interiorizar a dor sentida pela personagem ao decidir esse fim para si próprio e pelos seus familiares, ao terem que aceitar essa triste decisão, mesmo que esta seja muito dolorosa e difícil de aceitar, e terem de viver com isso para sempre. Devido a Jojo Moyes intercalar certos momentos de cómico de situação e de personagem, as próprias personagens ganham mais vida e até a própria história, criando-se, assim, uma ligação especial entre o leitor e as personagens do livro. Apreciei bastante este romance sobretudo pela forma como a autora aborda este tema intercalando-o com o amor e a felicidade, pelo carisma transmitido através das falas das personagens e do seu carácter, e, por último, mas não menos importante, pela história em si, mantendo o leitor sempre com interesse em relação ao que acontecerá de seguida. A reter, principalmente, é a lição dada por Will a Louise em que o mesmo lhe diz para viver a vida ao máximo e para Louise seguir os seus sonhos e sair da “pequena aldeia” onde ambos viviam e ser ela própria, pois ele estará ao seu lado a cada passo que ela der. 
Viver Depois de Ti é um livro que, sem dúvida, leva o leitor a refletir sobre o direito à liberdade de escolha e as suas consequências e certamente em relação à eutanásia. Recomendo vivamente este livro àqueles que apreciam histórias românticas intercaladas com algum drama, mas que também relatem problemas da atualidade tais como este, a eutanásia, referido na obra de Jojo Moyes. É, sem dúvida, um daqueles livro que marcará o leitor por um bom período de tempo e que deixará marcas das personagens na vida do mesmo. 

Ficha técnica:
Viver depois de ti, de Jojo Moyes, 424 pág., Porto Editora, 2019

Classificação: 5/5 💛💛💛💛💛


Dara Stoyanova, nº 6, 10ºA

Uma abelha na chuva: a virtude dos sentimentos


Sem dúvida excepcional. Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira, publicado pela primeira vez em 1953, é um romance que manifesta o conflito infeliz do casamento forçado entre Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres. Durante o enredo deste outono invernoso, podemos observar a angústia da relação, as traições, o desespero, a obsessão com a ideia de morte, os sentimentos desmedidos, as emoções fragilizadas…

Esta obra maioritariamente descritiva tem início em Montouro, onde Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres dão início ao serão habitual. Primeiramente, compareceram o Padre Abel e D.Violante, acusados de mancebia; posteriormente,  D.Cláudia, professora primária, bastante frágil, e, por fim, o Dr.Neto, um médico erudito casado com a educadora. Durante a reunião, Álvaro embebedara-se, como sempre, quando surgiu a pergunta: ”Vida e morte, o que são?”. O protagonista ficouf a refletir a respeito desta questão até ao final do serão, quando finalmente teve em consideração: “A morte é perder as terras, a loja, o dinheiro,para sempre, e apodrecer, devorado pelos vermes…”.

Esta citação, em especial, dá muito em que pensar. Realmente, assim que morremos, perdemos tudo. Casa, família, bens.. Mas é a morte que nos espera no final da vida, e não é propriamente uma coisa que possamos evitar; precisamos de morrer para dar continuidade às gerações seguintes. Encerrada a reunião, Álvaro dirige-se para o escritório onde não consegue pregar olho devido à obsessão com a ideia de morte. Por essa mesma razão, decide sair para desanuviar as ideias quando se depara com o seu cocheiro, Jacinto, envolvido com Clara, filha de mestre António, o oleiro. No palheiro onde se encontravam, Álvaro ouvira Jacinto enunciar o nome de D.Maria; ouvira-o dizer que a sua mulher olhava-o como se o quisesse “comer”.  Deixado levar pela raiva e frustração, Álvaro decide expor o relacionamento amoroso a mestre António, pai de Clara, que se encontrava grávida na altura. Mestre António almejava grandes futuros por parte de Clara e achava que, se esta fosse casar com um mero cocheiro, podia arruinar a vida dela. Posto isso, teve a ideia de matá-lo, juntamente com o seu aprendiz, Marcelo. No final, o sofrimento de Clara era de tal maneira, que decidiu tirar a sua própria vida.

Pessoalmente, admiro a forma como Carlos de Oliveira nos alude ao facto de sermos responsáveis pelos nossos próprios atos; a maneira como o ser humano é egoísta, cego, adaptando o mundo à sua maneira de acordo com a sua vontade. Álvaro Silvestre e mestre António são exemplos desse egoísmo; seres humanos deixados levar pelos sentimentos, de modo a concretizar os seus desejos egocêntricos. Álvaro queria jus ao desrespeito e acusações de Jacinto; mestre António queria que Clara tivesse um futuro digno.  Ao contrário destas duas personagens, D. Maria dos Prazeres, descendente de uma família de  fidalgos, bastante serena, é uma personagem que particularmente me chamou a atenção. Forçada a casar com Álvaro, um mero burguês, para manter a imagem da família, a nossa segunda protagonista vive uma vida cheia de arrependimentos e desilusões. Como qualquer ser humano, D. Maria dos Prazeres só queria sentir-se amada, sentir-se segura, sentir-se em paz, sendo que esta não teve grande  oportunidade de escolha.

Uma abelha na chuva mostra também a influência da sociedade no nosso mundo. O medo de sermos julgados, a necessidade de aprovação, são fatores que estão bastante presentes no livro, bem como na realidade. Transmite  a real sensação de que nós viemos ao mundo para sermos avaliados, para sermos controlados, para sermos condenados ao mínimo erro que cometamos.

Uma outra perspectiva de vida, de facto. A ideia de sermos humanos, “abelhas” insignificantes deixadas levar pelos sentimentos, a ideia de que um dia deixaremos tudo para trás sem saber se iremos para o céu ou para o inferno, ou até mesmo para nenhum deles se realmente existir tal coisa, a agonia de um dia  deixarmos os nossos entes queridos, enfim. Esta obra faz-nos refletir sobre estes aspetos, sim, mas também nos relembra que a vida não é só medo, que existe muito mais para além da morte. Os sentimentos, desde a raiva, arrependimento, à compaixão, ao amor, são o que nos torna humanos, são o que nos torna  estas “ abelhas” especiais e não meras “abelhas”de quintal.

Esta é sem dúvida uma das obras mais emocionantes, interessantes e inesquecíveis que já li, pois aborda aspetos reais da nossa sociedade e do mundo em que vivemos. Recomendo este livro a quem queira desfrutar de um bom romance e a quem goste de refletir e discutir sobre assuntos da nossa realidade.  Afinal, nós somos  seres humanos e todos cometemos erros. E quem é que já não se sentiu frágil perante todas as adversidades da vida, tal como ao imaginarmos o bater das asas duma abelha a tentar sobreviver num dia chuvoso?


Ficha técnica: 
Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira, 196 pág., Livraria Sá da Costa Editora, 1996

Classificação: 5/5 💛💛💛💛💛


Artur Marques, 10ºA, nº3